Grande Prêmio IV Centenário do Rio de Janeiro – 1965

Em 1º de Março de 1965, o Rio de Janeiro fazia 400 anos, e para comemorar a data, o Automóvel Club do Brasil, criou em 19 de Setembro daquele ano, uma prova de 2 horas de duração no antigo Circuito da Barra da Tijuca, uma exinta pista de rua localizada no famoso bairro carioca. Por causa da data, a corrida ganhou uma certa importância, e todas as equipes estavam ali para ganhar.

 

Nessa época, as equipes de fábrica começavam a partir para a ignorância umas com as outras…não bastava mais preparar um carro para a pista, estavam importando carros!!! A Equipe Willys detinha os direitos de fabricação do Alpine A108, chamado aqui de Willys Interlagos, mas trouxe dois Alpine A110; o Departamento de Competições da SIMCA havia criado o Tempestade, mas trouxe da Itália três Simca-Abarth 2000. A única equipe que não importou foi a Equipe VEMAG, que junto com Rino Malzoni desenvolveram o GT Malzoni, um coupé com mecânica DKW.

O dia da prova foi um dia quente, literalmente! Enquanto todos se preparavam para a qualificação, o caminhão que trazia os carros da SIMCA de São Paulo para o Rio de Janeiro quebrou no meio do caminho, e os carros vermelhos só chegaram de noite. A direção de prova se reuniu e decidiram utilizá-los para completar o grid, largando das últimas posições, atrás dos últimos carros classificados no sábado. Mas não foi o único problema da SIMCA na prova. Alguns fiscais da Alfândega comunicaram a equipe que os Simca-Abarth não poderiam participar da prova por estarem em situação irregular no país. Chico Landi conseguiu adiar a decisão de expatriar os carros, dizendo que a direção da fábrica estava cuidando disso em São Paulo.

A Surpresa veio na última hora, Camilo Christófaro, veio com uma Ferrari GTO, mas seu tio, Chico Landi protestou contra o uso do carro, o que desencadeou uma briga sobre qual categoria o carro deveria ser enquadrado e envolveu até o Enzo Ferrari!!!

A prova começa agitada, os SIMCA pulam pra dianteira, passando por cima até da Ferrari, mas o domínio não durou muito tempo, Fernando “Toco” Martins abandona com o Tufão numeral 83 após acertar um monte de areia e capotar na curva do Corsário.  Logo após é a vez de Cyro Cayres com vazamento de óleo no Simca Abarth numeral 44. Chico Landi então começa a pressionar Ubaldo Lolli para ir mais rápido, pois o SIMCA Tempestade começa a ser perseguido pelo Willys Interlagos de Bird Clemente. Após a 48ª volta o nervosismo volta a à tona. A Ferrari começa a diminuir a ampla vantagem do Simca Abarth numeral 26 de Jaime Silva. Chico ordena seus pilotos a acelerarem mais, mas a alegria durou pouco. Na 56ª volta, O cubo de roda do Simca Abarth de Jaime quebra na curva do S, e abre caminho pra vitória da Ferrari. Em segundo lugar, vinha o DKW GT Malzoni de Mario “Marinho” César de Camargo Filho, em primeiro na categoria protótipos, após uma briga ferrenha entre os GT Malzoni e os Alpines. Já a Equipe Willys faturou tudo na classe de veículos de 851 até 1.300cm³ com os Willys Interlagos, com os três carros nas três primeiras posições: Bird Clemente com a berlineta numeral 22; José Carlos Pace com a numeral 12, e Carol Figueiredo com o carro numeral 21.

No Final, após um pega épico entre os DKW GT Malzoni e os Alpines, os pilotos (Marinho Camargo e Luis Pereira Bueno) se abraçam e comemoram a corrida

– Fiquei nervoso andando na tua frente e bati numa guia

– Luisinho, você provou hoje que é um grande piloto. Pena foi o teu carro ter quebrado (suporte do dínamo) já no fim.

Na classe inferior, outra cena memorável, após um pega entre Piero Gancia com uma Alfa Romeo Guilia TZ e Bird Clemente com um Willys Interlagos, a máquina da Equipe Jolly quebra a quase 2 km do final, mas Piero Gancia não se dá por vencido e mais de meia hora depois cruza a linha de chegada empurrando o carro. Fato que foi ovacionado por todos, e recebe os parabéns de Chico Landi: “Um gesto desse só poderia partir de você, Piero!”

Mas a confusão sobre a Ferrari vencedora ainda persistia, a SIMCA através de Chico Landi enviou um documento a direção de prova exigindo explicações sobre a Ferrari numeral 18, exigindo a ficha de homologação da FIA. Com isso, o carro passou a constar como protótipo, mas a briga estava armada. Na festa da premiação, o presidente do Departamento de Competições da SIMCA, Amílcar Ribas disse que os prêmios seriam entregues depois, tendo em vista o protesto da SIMCA. Camilo Christófaro fez um discurso que logo se tornou um desabafo sobre a situação e foi embora.

Logo começou a busca pelo documento do carro, que foi enviado por Enzo Ferrari para o Automóvel Clube do Brasil, onde realmente constava homologado como GT, mas segundo Landi, o carro era um Testarrossa com carroceria de GTO. E, como não havia sido homologado como protótipo, não poderia ter corrido. Camilo contestava dizendo que o carro era legalizado, e o atrito entre tio e sobrinho continuou. O carro foi considerado protótipo, e vencedor da corrida, mas foi logo vendido por Camilo para um piloto particular.

 

Após muito tempo, descobriram que o carro era na verdade uma Ferrari 250 TR Testarossa modificada com uma carroceria de 250 GTO Drago, afinal as GTO foram lançadas em 1962, e o carro da discórdia era documentado como 1958.

mais fotos da prova:

Ubaldo Lolli rodando na frente de Luis Pereira Bueno

Chico Lameirão correndo sem parabrisa

Bird Clemente dando bote em dois (Carlos Erimá e Emilio Zambello) de uma vez

DKW Belcar derrapando

vídeo da prova

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Resultado da prova:

 

  1. Camilo Christófaro – Ferrari GTO – 60 voltas – 1:56:23.08 (privado)
  2. Marinho Camargo – GT Malzoni – 57 voltas – 1:58:11.02 (Equipe VEMAG)
  3. Wilsinho Fittipaldi – Alpine A110 – 57 voltas – 1:58:20.05 (Equipe Willys)
  4. Jaime Silva – SIMCA-Abarth 2000 – 56 voltas – 1:47:55.04 (Departamento de Competições SIMCA)
  5. Eduardo Sucracchio – GT Malzoni – 54 voltas (Equipe VEMAG)
  6. Bird Clemente – Willys Interlagos – 52 voltas (Equipe Willys)
  7. Ubaldo Lolli  – SIMCA Tempestade – 52 voltas (Departamento de Competições SIMCA)
  8. José Carlos Pace – Willys Interlagos – 51 voltas (Equipe Willys)
  9. Carol Figueiredo – Willys Interlagos – 51 voltas (Equipe Willys)
  10. Emilio Zambello – Alfa Romeo Guillieta – 51 voltas (Equipe Jolly)
  11. Lauro Soares – SIMCA Chambord – 51 voltas (Departamento de Competições SIMCA)
  12. Francisco Lameirão – DKW GT Malzoni – 50 voltas (Equipe VEMAG)
  13. Carlos Erimá – Willys Interlagos – 50 voltas (privado)
  14. Piero Gancia – Alfa Romeo Guilia TZ – 50 voltas (Equipe Jolly)
  15. Valter Hahn – SIMCA Chambord – 49 voltas (Departamento de Competições SIMCA)
  16. Luis “Peroba” Pereira Bueno – Alpine A110 – 48 voltas (Equipe Willys)
  17. Pedro Victor de Lamare – Renault 1093 – 48 voltas (Equipe Willys)
  18. Roberto “Coruja” Amaral – Renaut 1093 – 48 voltas (Equipe Willys)
  19. Pedro “Jaú” Oliver – SIMCA Chambord – 48 voltas (Departamento de Competições SIMCA)
  20. Paulo Serrador – Willys Interlagos – 47 voltas (privado)
  21. Narciso Sá – Willys Interlagos – 44 voltas (privado)
  22. Feres Neto – Volkswagen – 43 voltas (privado)
  23. Celso Gerassi – DKW Belcar – 42 voltas (privado)
  24. Paulo Vargas – Volkswagen – 42 voltas (privado)
  25. Gilberto Capitão – Renault 1093 – 42 voltas (privado)

 

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